BOCA FELIZ & INHAME INHAME

R$ 20,00 

translation missing: pt-BR.products.sold_out.product

translation missing: pt-BR.products.sold_out.form_description

Capas originais de Newton Montenegro de Lima em 88 e 89, mixadas por Cesar Lobo quando os livretos se juntaram, em 96, e de novo em 2011, quando atualizei o texto.

Texto de Boca feliz abaixo, texto integral de Inhame inhame aqui.

____________________________________

BOCA FELIZ: COMER É BOM E EU GOSTO

Ninguém precisa ser naturalista para melhorar a alimentação. Mas, afinal, o que é um naturalista? Antigamente chamavam assim as pessoas que iam viver nas ilhas: todo mundo morando no mato pelado, comendo fruta, observando passarinho e convivendo com as cobras numa boa. Mas essa moda não pegou, e naturalista passou a ser quem come comida natural. E o que é comida natural? Existe alguma comida que não seja natural?

De uma forma ou de outra, tudo é tirado da natureza. Até o plástico, que vem do petróleo, que por sua vez vem do centro da terra, pode ser considerado natural. Mas o plástico não se desmancha de novo. Não é como a madeira, a casca de banana ou o corpo de pessoas e animais, que vieram do pó e ao pó voltarão. Podem se passar 100 anos e o plástico ainda estará do mesmo jeito. Algumas comidas são como o plástico — não se desmancham dentro do corpo, não se misturam com a nossa natureza de uma forma normal nem nutrem a vida. Aqui e ali começam a aparecer os montinhos de lixo que a gente comeu, no sangue, nas juntas, nas células. Em volta deles vão se instalando bactérias, vermes, fungos, e dali a pouco tudo já virou bagunça, isto é: doença. Ou seja: certas comidas agridem a nossa natureza, enquanto outras se integram ao nosso corpo de uma forma completamente natural. Por isso é que se diz comida natural.

Por exemplo, a dona Maria, lá daquele lugarejo do sul de Minas, come comida natural. O feijão vem da roça do Bento, o arroz quem traz é dona Fujiko, o milho e o aipim e as verduras são ali do quintal mesmo e as frutas aparecem conforme Deus vai dando: banana, laranja, tangerina, jaca, mamão, jabuticaba, abacate, cada qual na sua estação. Os ovos também são do quintal, postos todo dia pelas galinhas que têm até nome. E se acontece de comer um frango, um leitão, um cabrito ou uma carne de vaca, todo mundo sabe que o animal era sadio e bem tratado.

Dona Maria tem uma saúde de ferro.

Muito longe de Minas, lá nas bandas do Maranhão, seu Ribamar também come comida natural: é um peixe, uma caça, um milho, uma farinha de mandioca, um óleo de coco babaçu, umas folhas de vinagreira cozidas só no bafo da panela, castanha-do-brasil, banana, coco e todas as frutas que Deus também dá por lá.

Seu Ribamar é outro que tem saúde de ferro.

Agora: o filho da dona Maria e a filha do seu Ribamar, que foram atrás de outra vida na cidade grande e casaram, não comem comida natural. Porque na cidade quase nada é colhido ou criado, tudo pode ser comprado no supermercado, enlatado, empacotado, congelado, superconservado, já vem preparado, já vem temperado, já vem salgado e adoçado que é pro freguês ficar bem acostumado... Então eles comem é muito pão, salsicha, salgadinho, macarrão, fritura, doce, biscoito recheado, bolo, refrigerante. Sabem que não é uma comida decente, mas vão comendo assim mesmo.

A saúde deles é fraca. Sentem dor de cabeça, acordam cansados, se irritam com facilidade, volta e meia estão com gripe. A filha do seu Ribamar tem prisão de ventre e está engordando muito, o filho da dona Maria sente uma queimação no estômago que parece úlcera. E Júnior, o filhinho, que só tem três anos, vive dando entrada no hospital por causa de asma.

Nós somos o que comemos. Assim como uma árvore precisa de terra boa para crescer e dar frutos, gente precisa de alimentos bons para ser feliz.

O filho da dona Maria e a filha do seu Ribamar não veem que a comida fraca está sabotando sua felicidade. E você, como é? Já parou pra pensar se a sua comida está ajudando ou atrapalhando a sua vida?

UM GRÃO DE TRIGO pode valer mais que um grão de ouro – porque o ouro só serve para ser trocado por outra coisa, enquanto o grão de trigo, sozinho, é capaz de criar vida na terra e produzir quilos e quilos de grãos iguais a ele. Desse trigo, moído, é que a humanidade aprendeu a fazer a farinha, a massa, o macarrão; fermentou, assou, fez pão.

Pão integral é um dos símbolos da alimentação natural. A farinha usada para fazê-lo é grossa, cheia de farelo. Dali sai um pão escuro, consistente, com sabor intenso. Além de ser mais nutritivo do que o branco, suas fibras ajudam o intestino a funcionar e isso é muito valorizado por quem quer cuidar da saúde. Mas qualquer pão tem um problema: fermenta. Por isso, do pão, pouco.

O trigo é usado quebradinho pelos árabes, no tabule e no quibe – fica de molho apenas para inchar e amaciar. Na cozinha oriental, o grão entra inteiro em sopas e papas. Árabes e hindus fazem o pão sem fermento.

Glúten é a proteína do trigo, justamente a que se ativa ao amassar o pão. Nas últimas década tornou-se suspeito de provocar reações de intolerância e muita gente passou a evitar o trigo.

NINGUÉM COSTUMAVA COMER AÇÚCAR em 1500, quando o Brasil foi descoberto. Aliás, nem existia cana-de-açúcar por aqui. Foram os portugueses que trouxeram as mudas, depois de conhecer a doce rapadura lá no caminho das Índias – e adorar. Mas era uma coisa tão cara, tão cara, que só ricos podiam comprar. Pra você ter uma ideia, em 1630 um boi gordo custava 11 moedas de ouro, e cem gramas de açúcar custavam 12. Quer dizer, uma xícara de açúcar valia mais que um boi. Hoje, qualquer pessoa come fácil mais de cem gramas de açúcar por dia. Ficou banal, porque os fazendeiros, usineiros, comerciantes e governos acabaram conseguindo meios de produzir muito açúcar a preços baixíssimos. Primeiro trouxeram escravos, arrancados de suas próprias casas na África, para trabalharem nas plantações de cana e nos engenhos até morrer de cansaço ou pancada. Depois inventaram máquinas para obter açúcar em pó em vez de pedras de rapadura. Para fazer açúcar, primeiro se ferve o caldo da cana até virar melado; apurando o ponto, o melado cristaliza em forma de rapadura; refinando, se obtém açúcar branco.

Melado e rapadura têm ferro e cálcio, que fortalecem o sangue, os ossos e o sistema nervoso. Já o açúcar branco não vale nada. É só um cristalzinho doce que não tem nada que sirva para alimentar gente ou bichos. Dá uma onda de calor que passa logo e deixa a pessoa mais fraca. Quanto mais açúcar, maior o risco de doenças graves como diabete, câncer, enfarte. Fora as mazelas de todo dia, como dor de estômago, de cabeça, de barriga, cáries, espinhas...

Açúcar no leite, no café, no suco, na geleia, no refrigerante, no sorvete, no pudim, no chocolate, no refresco, no doce, na bala, no bolo, no biscoito e até no coitado do pão: muito açúcar todo dia. WWPara começar, cria no corpo um ambiente muito gostoso para vermes, bactérias e fungos, do mesmo jeito que o açucareiro aberto atrai baratas, ratos e formigas. Como é muito concentrado, prejudica o estômago, o pâncreas, o baço, os rins e os intestinos. Nosso sistema de defesa gasta reservas de vitaminas e sais minerais tentando neutralizar o excesso de açúcar, mas raramente consegue. Por fim, esse excesso se acumula no corpo em forma de gordura (por isso é que o açúcar engorda) e afeta até mesmo a nossa capacidade de pensar com clareza.

Nem tudo o que é gostoso faz mal. Mas açúcar, além de fazer mal, vicia. Tente largar para ver como é difícil. Outro problema ligado ao excesso de açúcar são os vermes e fungos que normalmente nos habitam em pequena quantidade mas proliferam deliciados quando há mais açúcar na área. Quem sente muita ânsia por doces geralmente se alimenta mal e não tem uma boa imunidade. Seria bom pensar em tomar um vermífugo polivalente duas vezes por ano, uma delas nos meses que não têm r: maio, junho, julho, agosto.

Você sabia que dá para fazer doces deliciosos usando apenas a doçura natural das frutas?

A GALINHA DO VIZINHO bota ovo amarelinho, bota um, bota dois, bota três, bota quatro, bota cinco, bota seis...

Galinha de quintal todo dia namora o galo e bota ovo no ninho; depois de umas três semanas deita em cima para chocar e dali a algum tempo começam a sair os pintinhos. Toda prosa, D. Galinha vai passeando com eles pelo terreiro, ensinando a ciscar, a achar minhoca, a bicar quirera de milho e de arroz, a beber água. Quando eles já estão grandinhos, ela começa a namorar e botar ovos de novo para chocar mais pintinhos.

São ovos de casca forte, a gema quase cor de abóbora. Alimento do bem, que nutre, fortalece, evita doenças. Ah, mas não aumenta o colesterol? Não, minha senhora: esse mito já desabou há muito tempo. Ovo caipira, em geral, faz bem.

Agora, esses ovos comuns, você sabe como são produzidos? Nascem os pintinhos e, quando já dá pra separar as fêmeas dos machos, a ração delas muda: ganha produtos químicos que agem como hormônios e aceleram os ovários. Elas então amadurecem à força e começam a pôr muitos ovos – dois ou mais por dia. Nunca fazem uma pausa para chocar e criar pintinhos. Também, nem têm galo pra namorar. Vivem em gaiolas, não pegam sol, jamais passeiam para ciscar e comer minhoca. Tomam montes de vacinas e antibióticos para não ficarem doentes. Lá pelas tantas não dão mais nada; aí vão para o abatedouro.

Esses ovos feitos com antibióticos e substâncias químicas são os mais baratos do mercado. Essas galinhas e seus frangos tristes, criados à base de drogas, são praticamente animais artificiais. O tal do chester, então, é mais artificial ainda— uma raça criada em laboratório para dar mais lucro.

Na alimentação natural a pessoa se preocupa com isso, procura conseguir frangos e ovos de quintal. Mesmo que consiga só de vez em quando, está bom. Afinal, ninguém precisa mesmo comer frango e ovos todo dia.

A COMIDA DE TODO DIA, no Brasil e em muitos lugares do mundo onde há fartura, é feijão com arroz, vegetais frescos, um pouquinho de carne ou ovo se tiver. É uma combinação equilibrada se as porções de arroz e feijão não forem muito grandes.

Para os vegetarianos, a base da refeição é algum tipo de cereal em grão (como arroz e quinoa), flocos (como aveia) ou farinha (como macarrão, pão, angu). Para acompanhar, entra o nosso amado e idolatrado salve-salve feijão!, que também pode ser grão-de-bico, lentilha, ervilha, etc.

Legumes e verduras completam o fornecimento de vitaminas, minerais, fibras e outras delicadezas de nomes estranhos (vanádio, molibdênio, selênio) sem as quais o corpo, a cabeça e as emoções começam a dar defeito.

O que chamamos vagamente de ""legumes e verduras"", na verdade são vegetais de tipos diferentes: os que crescem para baixo da terra, os que crescem para cima, os que dão frutos, os que dão grãos.

Para baixo crescem as raízes – cenoura, bardana, nabo e rabanete compridos.

À flor da terra crescem os bulbos – beterraba, nabo redondo, rabanete comum, alho-poró, funcho, aipo/salsão, alho, cebola.

A um palmo abaixo, os tubérculos: batata-doce, batata-inglesa, cará, aipim (que em São Paulo se chama mandioca e no norte é macaxeira), batata-baroa (que no sul é mandioquinha ou batata-salsa). Também o inhame, que já não é tubérculo, é cormo. E os rizomas, como gengibre e cúrcuma (açafrão-da-terra).

Da terra para cima crescem as verduras de folha: couve, repolho, mostarda, alface, agrião, almeirão, serralha, bertalha, espinafre, acelga, taioba, caruru, beldroega, coentro, hortelã, salsa, cebolinha, jambu, vinagreira, mastruço, ora-pro-nóbis, chicória, bredo e tantas outras!

Crescem também por cima da terra as plantas que dão frutos – rasteiros, pendurados, espetados para cima: abóbora, abobrinha, chuchu, pepino, maxixe, jiló, berinjela, tomate, pimentão, quiabo.

Os cereais são as sementes de tipos diversos de capim que dão espigas nas pontas.

Feijões & cia são sementes dentro de vagens, secas ou não, e só eles têm direito ao nome ""leguminosas"".

E o que vem dos animais? Carne, aves, ovos, peixe, leite, queijos: pouco é remédio, muito é veneno.

Gorduras e produtos animais fazem parte do cardápio da maioria dos povos, quando disponíveis, e são valorizados por serem alimentos densos, que emprestam uma energia concentrada. Mas muitas doenças também podem ser resultado de uma combinação entre o excesso de carne, ovos, laticínios, gordura animal e falta das fibras alimentares vegetais. As fibras limpam.

Veganos se recusam totalmente a comer produtos animais. Vegetarianos comem, mas só se não for matéria morta: leite, queijo e manteiga, mel e ovos, tudo bem. Acham que não devemos matar para comer se a terra já nos dá tanto alimento.

Onde a cultura é forte e existe tradição, todo mundo come como sempre comeu. Nas grandes cidades, onde a tradição foi perdida, a escolha da alimentação é muito pessoal. Cada um deve comer aquilo que o faz sentir-se melhor. No fim, o grande segredo está no autoconhecimento: quem não se conhece se engana.

Quando quiser preparar uma refeição equilibrada, lembre de três coisas: vegetais frescos são fundamentais para a refeição, um prato colorido enche a pessoa de vida, a variedade de sabores pode garantir a saúde.

Um cardápio equilibrado deveria ter 5 porções de vegetais variados, 1 porção de cereais, feijões, batatas ou massa e 1 porção de carnes ou ovos, se for o caso. Se o almoço tiver proteína animal, a janta pode ser só de vegetais. A digestão fica mais leve, o sono melhora. Além disso, comer muito à noite engorda.

Cereais e feijões precisam ser bem cozidos, mas outros vegetais perdem a vitalidade das enzimas quando aquecidos por mais tempo. Por isso vale a pena insistir nas saladas quentes crocantes. Assim: corte em palitos ou fatias finas quatro ou cinco vegetais de tipos diferentes – pepino, rabanete, cenoura, yakon, aipo, abobrinha, repolho, couve-chinesa; passe rapidinho na frigideira quente, sobre um dente de alho amassado com azeite, só até as cores ficarem brilhantes; está pronta.

As cores e os sabores também revelam diferenças na energia dos alimentos. Um prato de comida fica mais bonito, completo e satisfatório se tiver várias cores – branco, amarelo, verde, vermelho, marrom – e todos os sabores: doce, salgado, ácido, picante, amargo. Os sábios chineses já dizem há milênios que é preciso saber misturar os sabores para ter vitalidade no corpo, na mente e no espírito.

Geralmente exageramos no salgado e no doce, deixando de lado o ácido (do limão), o amargo (do jiló, das verduras como chicória e rúcula) e o picante (do nabo, do gengibre, da cebola crua, do alho). E é bom variar as cores. Sem ficar só no marrom (feijão, carnes cozidas) e no branco (pão, arroz, macarrão, açúcar, leite, laticínios), abrir espaço no prato e na boca para o verde-escuro, o verde-claro, os amarelos, cor de abóbora, vermelhos, roxos...

AGORA, uma coisa que nem todo mundo sabe: a gente joga fora justamente as folhas que alimentam mais. As folhas do aipim (macaxeira, mandioca mansa) e da batata-doce são alimentos riquíssimos em vitaminas e sais minerais. Dê uma olhadinha na tabela para comparar:

100 gramas mg ferro mg vit A
folha de aipim 7,6 1960
folha de batata-doce 6,2 975
caruru 5,6 530
mostarda 3,0 700
espinafre 3,3 585
salsa 3,1 607
serralha 3,1 480
bertalha 1,6 582
ora-pro-nobis 3,6 250
taioba 2,0 300
couve 1,0 650
alface 1,3 87
repolho 0,7 10
     

As folhas de nabo, rabanete, cenoura, beterraba, couve-flor e brócolis também são ótimas para comer, com talo e tudo. A pessoa que se alimenta de verduras frescas nunca vai ter problemas de anemia, pois seu sangue será rico em ferro, nem está arriscada a perder a visão, como os que têm deficiência de vitamina A. Com mais um detalhe interessantíssimo: todas essas folhas ajudam o intestino a funcionar bem. Não é ótimo?

Em geral, as verduras podem ser comidas de várias formas: cruas, ligeiramente cozidas no vapor, aferventadas, refogadas num tiquinho de óleo ou mesmo só murchinhas na quentura da panela. Ficam gostosas também quando você mistura folhas cruas com sal, amassa com as mãos, espreme e corta. Se ainda achar salgado, passe na água e torne a espremer.

Mas atenção: a folha do aipim tem um componente venenoso, o ácido cianídrico, que só é neutralizado pela fervura ou pela secagem. Por isso a maneira mais prática de obter toda a riqueza da folha do aipim é: secar na sombra (se for no sol ou no forno, ela perde a vitamina C), transformar em pó (com as mãos, no pilão ou no liquidificador), peneirar, guardar num vidro tampado e usar uma pitadinha em tudo o que for cozinhar.

Atenção também quando fizer espinafre — ele deve ser comido na hora; depois de algum tempo fica ácido demais e faz mal. Por isso é péssima idéia fazer pastéis, esfihas e tortas de espinafre.

OUTRA COISA que a gente joga fora sem pensar é a casca do ovo, que é puro cálcio. Cólicas, cãibras, insônia e nervos à flor da pele podem ser sinais de carência. E toda mulher, dez dias antes da menstruação, começa a precisar mais dele.

Preparo: lavar bem as cascas dos ovos e amassá-las. Ferver por 20 minutos e lavar bem para retirar a espuma branca. Deixar de molho por 30 minutos em 1 litro de água para uma colher de (sopa) de hipoclorito ou água sanitária. Secar ao sol ou ao forno. Liquidificar ou pilar. Passar em pano bem fino para ficar como talco (usando máscara, por higiene e para não aspirar o pó).

Usar uma colher/chá por dia em sumo de limão – esperar ferver (como um comprimido efervescente) e tomar. Ou deixar em vinagre por duas ou três horas antes de usar. O ácido facilita a liberação do cálcio. Adicionar a sopas, mingaus, farofa, paçoca, bolo.

Folhas verde-escuras ricas em cálcio: bredo, folha de abóbora, caruru, couve, folha da mandioca (em pó), mastruço, nabiça, vinagreira, coentro, salsa.

E o leite, não tem cálcio? Tem. Mas não é fácil de assimilar. Quando a pessoa fica com gases, alergia, rinite, problemas de fígado, ou sente a boca seca depois de beber leite, é melhor procurar cálcio num alimento mais apropriado para gente. Gente não é bezerro, é?

AI, AI, MAS TEM MUITO BEZERRO comendo melhor do que gente. Você conhece aquele farelinho de trigo que é vendido nas casas de ração? E aquele farelinho de arroz que também dão para porcos e galinhas? Pois então fique sabendo que eles são mais nutritivos do que a maior parte da cesta básica. Não existiria mais fome no Brasil se todo mundo pudesse comer ao menos o que o gado come. E a razão disso é muito simples. Como já sabemos, o moinho mói o trigo e peneira muitas vezes a farinha para torná-la bem branca e fina. O que sobra na peneira? Farelo e germe de trigo. Uma parte é separada para vender nas lojas de produtos naturais, a outra vira ração. Mesma coisa na máquina de ""beneficiar"" arroz. O arroz chega lá integral, com aquela película onde estão todos os minerais e vitaminas, e sai de lá despelado, lixado, empobrecido, branco. O que sobra é o farelinho, melhor coisa que existe para engordar porco e galinha.

Pois a pediatra e nutróloga Clara Brandão, com seu então marido também médico, estudou o assunto e resolveu utilizar os farelos para ajudar na alimentação das crianças desnutridas de Santarém, no Pará. Bebês com três meses de idade parecendo recémnascidos prematuros começaram a tomar mamadeira feita assim: leite, farelo de arroz ou de trigo, fubá, farinha de mandioca, pó da folha do aipim, pó da casca do ovo e uma colher de óleo de cozinha depois de apagar o fogo.

Os resultados foram impressionantes. Em pouco tempo pareciam outras crianças. Gordas, cabelos e olhos brilhantes, reflexos perfeitos, sorriso em vez de sofrimento. Tanto que as creches ligadas à LBA e à Pastoral da Criança começaram a usar esse sistema pelo Brasil inteiro, e ao longo de trinta anos muitas vidas já foram salvas com essa alimentação alternativa.

Clara reparou que os adultos também se alimentavam mal. De manhã, um café puro ou com leite, pão com margarina, e só. É claro que duas horas depois estavam com fome. Naquela região era tradicional comer mingau ou cuscuz de manhã, e a médica começou a sugerir que voltassem à tradição, adicionando farelo de arroz ou trigo à massa convencional de fubá e leite. Como a receita estava dando bons resultados com as crianças, os adultos resolveram tentar. E realmente se sentiram mais fortes e bem alimentados, sem fome até a hora do almoço.

Foi uma pequena mas importante revolução na vida de toda a comunidade. E o melhor veio depois. Fazendo as contas, viram que uma família de seis pessoas gastava 60% do salário mínimo só com as despesas de café, leite, pão, margarina e açúcar. Com a volta do mingau e do cuscuz, a despesa diminuía para 20%. Sabe quanto isso representa de economia por ano? Quase cinco salários mínimos, só no café da manhã, e com mais saúde. Quem não quer?

TUDO O QUE ENTRA de alguma forma tem que sair. O que a gente come se transforma e aparece em algum lugar. As vitaminas dão brilho aos olhos e cabelos, luminosidade à pele, alegria, vitalidade; as porcarias saem como espinhas, furúnculos, coceiras, mau hálito, mau humor, dor de cabeça. E se os nossos principais canais de saída não estiverem funcionando bem, a gente entope. Que canais são esses? Os intestinos, que eliminam os restos sólidos; os rins e a bexiga, que eliminam os restos líquidos; a pele, por onde sai o suor com toxinas e cheiros, bons e ruins. Quando os intestinos estão cheios demais e o que tem de sair não sai, a gente chama de prisão de ventre. É um problema constante para quem come comida pobre em fibras: ela endurece a massa de fezes e faz o trânsito emperrar. Dá sensação de entupimento, dor de cabeça, irritação e tendência a ficar doente por causa das toxinas acumuladas. O farelo de trigo e o farelo de arroz, ricos em fibras, geralmente resolvem a questão rapidinho. E se a pessoa estiver comendo bastante vegetais fibrosos, melhor ainda. Essa fibra não se desmancha na digestão e quando chega aos intestinos começa a ser trabalhada pelas bactérias que moram lá. Isso produz fermentação e torna as fezes mais leves, ajudando-as a deslizar pelo enorme tubo intestinal (nove metros!). Todos os talos macios de verduras como agrião, brócolis, espinafre, bertalha, aipo, chicória, acelga etc são bons de fibra. Flocos de aveia, arroz integral, trigo e milho também são ricos em fibras. A cevada, que parece muito com arroz, é uma grande faxineira dos intestinos e vivia sendo receitada por Hipócrates, o pai da medicina, como remédio. Taí um seguro de saúde bom e barato – quem tem intestinos limpos não costuma ficar doente. Os rins e a bexiga eliminam as sobras líquidas, e para funcionarem a gente precisa beber água. Entre as refeições, que é para a água ir lavando os resíduos orgânicos que sobram do processo de digestão. Normalmente se indica beber no mínimo dois litros de água por dia — contando com os outros líquidos, é claro. E dando preferência à água fresca, de filtro de barro com velas. Água gelada sempre dá um choque na temperatura natural do organismo, que é quentinha, perturbando uma série de processos de circulação e digestão. A qualidade da água também é importante. Se não for de fonte, purinha, é preciso filtrar, ferver ou esterilizar ao sol. Conhece este método? Basta colocar a água, mesmo a mais contaminada, dentro de uma garrafa limpa de vidro branco ou azulado, ou saco plástico transparente, e expor ao sol forte durante no mínimo duas horas. Se puder ficar o dia inteiro, é ainda mais seguro. Os raios ultravioleta do sol matam todos os microrganismos. BEM, JÁ ESTAMOS ÍNTIMOS da comida mais natural; agora falta encarar de frente outros quatro elementos que assaltam a saúde da gente todo dia: sal, gordura, café e álcool. Sal o exagero faz subir a pressão, prejudica os rins, deixa a pessoa tensa e nervosa, prende o intestino, ameaça o coração, dá mau humor. Cuidado com temperos prontos onde o sal está embutido. Por exemplo, molho de soja: além de ser muito salgado, costuma ter MSG, monoglutamato de sódio, excitotóxico para os neurônios. Gordura é importante para todos os tecidos e tem que ser boa, pois muitas células e funções dependem dela. Se for pesada, excessiva, afeta circulação, coração, fígado, vesícula, pele, digestão. Em pequena quantidade se pode usar até as gorduras tradicionais, como banha de porco e manteiga, ao lado dos mais leves azeite de oliva virgem ou extravirgem, óleo virgem de coco e similares. Frango e galinha caipiras, fervidos longamente em fogo baixo para obter caldo, liberam uma gordura benéfica que não deve ser retirada. Todas as carnes gordas deveriam ser preparadas em baixa temperatura, para a gordura derreter sem fritar, especialmente a de porco. Faz mal a gordura reutilizada, ou que fica aquecida muitas horas na fritadeira; o óleo vegetal barato e a margarina usados em doces e salgados, em casa e nos restaurantes. O grande defeito da comida fora de casa costuma ser a gordura. Café é um estimulante poderoso. Um ou dois cafezinhos por dia podem cair muito bem; acima disso, a cafeína começa a se acumular e faz perdermos vitaminas e sais minerais. O excesso de estímulo afeta o sistema nervoso, produz ansiedade, aumenta o suor e a urina, irrita a mucosa gástrica, sobrecarrega o coração. Olho nele. Álcool também rouba vitaminas e sais minerais, prejudica muito o fígado e, como se sabe, vicia. Não quer dizer que não se tome uma cerveja, um vinho. Prazeres são parte da vida e da comida. É tudo uma questão de bom senso. meio sorriso POIS É, ENTÃO VAMOS às receitas. Mas antes, diga lá uma coisa: a boca está feliz? Como vão os dentes? E as gengivas? Você mastiga bem? Mastigar a comida tem várias funções. Uma é triturar o alimento, outra é produzir saliva e sucos gástricos para ele amolecer e começar logo a se transformar, ainda na boca. Outra função é saborear — identificar, reconhecer e ter prazer com aquele sabor, aquela textura, aquela consistência. Quem come correndo e engole sem mastigar não curte verdadeiramente a comida. Os dentes são nossos instrumentos de mastigar. Têm que estar em boas condições. Uma boca cheia de cáries é sinal de que alguém está autorizando as bactérias a furarem seus dentes. Primeiro porque come doces, bebe refrigerantes ou chupa balas ou toma cafezinhos doces entre as refeições. Segundo porque não escova os dentes direito. Quem está lá de novo? O açúcar, esse péssimo companheiro. Deixa um tipo de grude na boca que é ótimo para a multiplicação das bactérias da cárie. Bactéria de cárie é bichinho porco. No mesmo lugar em que come o grude ela faz cocô, cria toxinas, etc, etc. Você já viu ferrugem: começa num pontinho, vai se espalhando e toma conta do ferro todo. Isso poderia ser evitado logo no início, com uma boa lixa e a tinta adequada. Com as cáries é a mesma coisa. Quando não se escova os dentes à noite, você já reparou como de manhã eles acordam ásperos, peludos? Pois é a tal da placa bacteriana que já está lá, se instalando, igualzinha à ferrugem. É ela que se tem que limpar bem com escova e fio dental. A pasta só serve para dar um gostinho. Quem faz o serviço pesado, quem executa a faxina, é a escova. Dente bem escovado fica lisinho. As gengivas protegem os dentes. Firmes, cor-de-rosa e bem coladas neles, estão saudáveis. Vermelhas, moles, inchadas, guardando resíduos e sangrando por qualquer coisinha, estão doentes. Produzem mau hálito e são uma péssima referência dos cuidados que a pessoa tem consigo mesma. O tártaro e a placa bacteriana podem liberar no sangue bactérias que acabam afetando o coração.

DICAS DA BOA BOCA Coma seus doces na sobremesa, não entre as refeições. Cada vez que o açúcar passa pela boca faz um estrago, mesmo que seja só um tiquinho. Mas depois da refeição a boca ainda fica uma hora ou mais sendo lavada pela saliva da digestão, por isso o estrago é bem menor. Evite tomar refrigerantes e bebidas açucaradas. Por que botar açúcar na mamadeira do bebê? Ele ainda é todo purinho, não tem vícios, e está acostumado com o leite natural da mãe – cuja doçura é quase nenhuma. O leite já tem seu próprio açúcar, a lactose. Se você adoçar a mamadeira, o bebê vai se habituar; se não adoçar, ele vai mamar do mesmo jeito e ter mais saúde. Já viu como os dentes da criança que toma mamadeira doce são cariados? Principalmente os da frente, porque é comum a criança dormir com a mamadeira na boca. Procure passar o fio dental e escovar os dentes ao menos uma vez por dia, antes de dormir, olhando no espelho para prestar atenção. Os dentes das crianças até sete anos têm que ser escovados pelos mais velhos, ao menos três vezes por semana. O melhor jeito é deitar a cabeça da criança no colo para poder limpar bem os dentes de trás. Prefira as escovas pequenas, de consistência média (nem macias nem duras), para crianças e adultos. Um tiquinho de pasta do tamanho de uma lentilha é suficiente para todo o serviço, e não pode engolir. Escove só os dentes, não as gengivas! A escova deve pegar os dentes de quina, tanto por dentro quanto por fora. Para escovar a parte interna dos dentes da frente, use a ponta da escova, segurando na vertical. Os dentes gostam de morder maçãs, cenouras, goiabas e outros alimentos mais durinhos, que também massageiam as gengivas. Ossos precisam de exercício para serem fortes, dentes precisam mastigar bastante para serem firmes. Melhor prevenir do que remediar. Se os seus dentes estão bons, os cuidados com a alimentação e a higiene vão garantir conforto por muito tempo. Se existem pequenas cáries que não incomodam, evitar o açúcar e escovar direito vão impedir que elas aumentem. Às vezes o mau dentista faz um buracão onde só tinha um buraquinho. Dente que dói com coisa quente ou gelada pode estar mal por dentro, mesmo que não esteja cariado; é bom ir logo ao dentista. E se houver algum dente arruinado é essencial tratar, porque ele infecciona o sangue e causa doenças.

 

 

Similares