AMIGA COZINHA – crônicas e receitas

R$ 44,00 

translation missing: pt-BR.products.sold_out.product

translation missing: pt-BR.products.sold_out.form_description

canja

Existem comidas milagrosas, sim, e a canja de galinha é uma delas. A melhor que tomei na vida foi em Minas, num hotel de Cambuquira, muitos anos atrás. Cheguei lá com dor de cabeça, o rosto congestionado, uma sensação de gripe encostando, apetite nenhum. A dona do hotel me convenceu a tomar um prato de canja. Tomei dois. Dia seguinte era outra pessoa, feliz e bem disposta.

 A canja de galinha, feita com os ossos mais humildes da carcaça e dos pés e um pouquinho de arroz, tem a felicidade de combinar sabor e textura agradabilíssimos com uma poderosa ação medicinal. É conhecida no mundo inteiro por suas propriedades benéficas para adoentados e convalescentes. Chegou ao Brasil com os marinheiros portugueses que vinham da Ásia, ainda no século XVI; daí ter virado um prato tradicional brasileiro.

Canja vem do kanji indiano e do congee chinês, tradicionais papas ralas de arroz longamente fervido. Na China a pessoa acorda e vai à lanchonete comer congee. Escolhe e coloca numa tigela pedacinhos de vegetais, carnes, peixes ou ovos, todos crus, que vão receber por cima o caldo de arroz pelando que os deixa semicozidos: fáceis de digerir, mas sem perda de enzimas e vitaminas. Há muitas opções entre os complementos, inclusive medicinais.

Nos mosteiros Zen o congee se chama okaio. O arroz cozinha a noite inteira em fogo baixo e é servido no desjejum, acompanhado por uma pequena porção de verduras como repolho ou couve-chinesa, refogadas em óleo de gergelim com um pouquinho de shoyu. Gersal e salsa por cima. Um pedaço de nabo em conserva é a sobremesa, e uma taça de chá encerra o serviço. É comida suave, para ajudar a esvaziar a mente.

 O longo tempo de cozimento torna as papas de arroz muito fáceis de digerir e absorver. Acalmam o trato intestinal e limpam os rins. O leite de arroz, que se obtém passando a papa na peneira, é uma bebida deliciosa e altamente nutritiva. Pode ser dado na mamadeira aos bebês já no início do desmame, após os 6 meses. Também é alimento ideal para pessoas muito idosas, que segundo a medicina chinesa podem comer papas o dia inteiro, a qualquer hora, para se manterem fortes mas sem sobrecarga.

Buda, no Livro da Disciplina, enaltece os poderes da papa de arroz, que comia com leite fresquinho e mel: “Dá dez coisas aos que a comem – vida e beleza, facilidade e força. Dissipa fome, sede e vento. Limpa a bexiga. Digere a comida. É louvada pelo bem-aventurado.”

A papa de arroz se faz com uma parte de arroz integral ou branco e oito a dezesseis partes de água. Lave o arroz e deixe de molho na véspera para ir transformando os grãos.

No fogão: panela grossa é importante. Se não tiver, coloque uma chapa de ferro ou pedra por baixo, ou um bom dispersor de calor. Reduzir a chama ao mínimo assim que ferver e cozinhar por três horas ou mais, mexendo de vez em quando.

No forno: em caçarola tampada, por três ou quatro horas, também em fogo mínimo.

Na panela elétrica crockpot: 8 horas na temperatura mínima e menos água, porque ela não deixa evaporar.

 Em caso de gripe ou resfriado, a canja de galinha – arroz cozido longamente com uma galinha inteira em bastante água – ajuda a vítima a melhorar mais rápido porque é rica em cisteína, um aminoácido que ajuda a expelir o muco dos pulmões. Mas tem que ser galinha caipira, criada sem antibióticos nem substâncias químicas, ou seja: comendo minhoca e namorando o galo até ficar bem velhinha e desapegada.

Quem se resfriou com frio ou vento pode tomar a canja bem quente e apimentada, pois o calor e a pimenta vão ajudar a mover os fluidos para fora e expectorar. A pimenta-vermelha pode ser usada ao natural, em conserva ou em pó, para um resultado antibiótico, antiviral e altamente suadouro, que expulsa o fator externo da gripe e faz a energia circular.

Já para fraqueza pós-parto, a canja deve ser muito mais santa: começa com uma galinha inteira, fervida até desmanchar. Coe, deixe esfriar, retire a gordura com papel-toalha e reserve o caldo. Faça a papa normalmente com arroz e água. Quando estiver quase pronta, junte o caldo de galinha, cozinhe mais um minuto e sirva.

Considerem-se com fraqueza pós-parto todos os que assim o desejarem.


Texto da 4a capa:

Cozinhar proporciona a quem cozinha um tempo de profunda consciência e atenção a um fazer delicado, que exige sensibilidade. Água, fogo e tempo têm que ser bem dosados. As mãos são precisas e lúdicas no corte. O olhar comanda e observa os mais mínimos detalhes. O olfato trabalha como nunca, percebe pelo cheiro quando a alcachofra está bem cozida, o arroz chegou ao ponto, a compota de maçã ficou pronta. E um sexto sentido entra em ação na hora de escolher temperos. É como dançar, tocar um instrumento, escrever um poema, pintar um quadro. Pode ser meditação. Pode ser arte.

Texto das orelhas do livro, pelo astrólogo Fernando Fernandes

Até algum tempo atrás, os trabalhos sobre alimentação sempre eram tratados como obras técnicas, cheias de tabelas de nutrientes e notas de rodapé repletas de informações científicas. A grande contribuição de Sonia Hirsch foi a mudança de perspectiva. Em vez de tratar a alimentação exclusivamente como uma questão de saúde, coloca em primeiro plano a relação entre comida, prazer e criatividade.

Pela primeira vez o foco saiu da dieta e incidiu sobre gente de carne e osso e suas complicadas motivações. A linguagem coloquial, o toque afetivo e a ênfase nas situações do cotidiano fazem a diferença. Não é por acaso que a CorreCotia ostenta um catálogo de 16 títulos, com mais de 300 mil exemplares vendidos. Alguns títulos já chegaram à 14ª edição, coisa rara no Brasil.

Sonia não corresponde ao estereótipo acadêmico da especialista, sendo muito mais a divulgadora capaz de fazer com que o conhecimento técnico especializado se torne acessível a todos. Independente, autodidata, competente como administradora, franca e assertiva, essa jornalista-escritora construiu seu próprio nicho profissional e, graças ao estilo único, vem ajudando milhares de leitores a refletir sobre alimentação adequada e qualidade de vida.

Fernando Fernandes

www.constelar.com.br

fonte: mapateste de Sonia Hirsch

Similares