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Daninhas?

posted 2019 Mar by

Tanchagem / Celina Gusmão

O cortador de grama quebrou, a peça demorou a chegar, aí choveu sem parar e a grama cresceu. Junto, dezenas de plantinhas novas, aqui e ali. Umas floridas, outras com folhinhas mimosas, outras folhudíssimas, umas bem bonitas, outras nem tanto.

Logo encontro a tanchagem, ou transagem (Plantago major), com suas folhas ovaladas brincando de roda em torno de um pendão cheio de sementes. Remédio fantástico tanto para o sistema respiratório quanto para o digestivo, resolve qualquer congestão de muco – tosse, bronquite, sinusite. Beneficia a imunidade e os rins, equilibra as secreções hormonais, é anti-inflamatório e anti-infeccioso, ajuda a normalizar o sangue.

Reconheço mais adiante um pé de caruru (Amaranthus deflexus), com sua folhagem macia que dá um refogado gostoso, riquíssimo em ferro e vitamina A. Vejo vários pés de serralha (Sonchus oleracens), plantinha que na roça também se come com gosto, em salada ou com um bom angu de fubá de milho. De repente noto que aquela outra é losna (Artemisia absinthium), substância essencial em vermífugos e de que também se faz um licor famoso, o absinto, muito usado na França no século 19 e proibido em vários países no século 20 devido a seu potencial tóxico.

Corro em busca do Manual de identificação e controle de ervas daninhas, de Harri Lorenzi (Editora Plantarum). Daninhas, diz o manual, são as ervas que nascem espontaneamente na terra e se alastram entre as plantas que se quer cultivar. No caso, a grama.

Mas peraí: caruru não pode ser daninho. Serralha não pode ser daninha. Losna? Se é remédio, só pode ser daninha em doses inadequadas, como qualquer outra coisa.

Mais adiante surge o dente-de-leão (Taraxacum officinale), irmão da serralha, que como ela tem efeito depurativo do sangue, limpa o fígado, combate a acidez, neutraliza gases intestinais e é amplamente usado pelas propriedades digestivas e diuréticas. Que honra tê-lo no meu jardim! E aquela haste fina, verde-escura, que se desenvolve em gomos e dá uma curiosa flor na ponta? É a cavalinha (Equisetum arvensis), uma das ervas mais antigas do planeta. Fortalece o que temos de mais estrutural: os ossos, a medula, os rins. Remineraliza os organismos debilitados, especialmente depois de doenças que envolvem os pulmões e ossos, e dizem que resolve úlceras.

Aquela outra, não é arnica? Solidago chilensis, em tudo semelhante à europeia Arnica montana, indispensável em qualquer farmacinha caseira para usar imediatamente após trauma, contusão e machucado, nevralgias, anemia e dezenas de outras chatices, inclusive pré e pós-operatório. Funciona por fora do corpo e também por dentro. Consta no Tratado de medicina popular do Irmão Cirilo Körbes (Editora Assesoar) que ela reabsorve o sangue dos derrames. Tomar umas gotas de tintura de arnica antes e depois de uma cirurgia ou extração dentária minimiza o sofrimento, bendita arnica.

Num canto estão crescendo vários pés de assapeixe (Vernonia sp.), que vão virar arvoretas, com folhas que espantam gripes e flores que as abelhas adoram, o que torna o mel de assa-peixe muito valorizado contra a tosse. Ao lado do jacarandá-mimoso está o picão (Bidens pilosa), tão bom para o fígado que é o melhor coadjuvante nas hepatites, com poderes pra lá de vermífugos, antimicrobianos, depurativos. E perto dele já dá frutos a erva-de-santa-maria (Chenopodium ambrosioides), de folhinhas intensamente aromáticas, presentes em muitas fórmulas contra vermes e usadas no México como tempero do feijão.

A lista de plantas medicinais que dão à toa e se alastram o quanto podem é grande: erva-macaé, erva-de-são-joão, erva-de-bicho, boldo, camará, quebrapedra, celidônia, urtiga, camboatá, sabugueiro, carqueja, chá-de-bugre, chapéu-de-couro, panaceia… Muito do que está nos livros de consulta e nas farmácias a natureza fez crescer no jardim, bastando a chuva e a máquina quebrada deixarem. E eu fico pensando: um gramado recém-cortado é lindo, parece apenas um tapete verde. Mas dentro dele há um tesouro para quem quiser vê-lo, todo feito de plantas daninhas.

Daninhas? Ou gracinhas?

Do livro Amiga Cozinha, ilustrado por Celina Gusmão. Vamos autografá-lo na Livraria da Vila e na Feira Bacana, sábado e domingo que vem, em SP.

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