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Comer sagrado

posted 2018 Dec by

086-061

Rola a conversa na mesa do restaurante e alguém diz que, para ter a espiritualidade bem desenvolvida, não se deve comer qualquer tipo de produto animal. Logo outro lembra que Hitler era vegetariano, e nem por isso menos agressivo, tirano, fanático e neurastênico. Alguém comenta que leite, laticínios e mel também vêm de animais e são permitidos pelos iogues. E, para enriquecer a discussão, na mesa ao lado há um monge budista, tibetano, comendo carne.

Afinal, a comida tem ou não tem influência sobre os aspectos mais sutis da vida?

A Bíblia está cheia de restrições alimentares; quem quiser conhecer sua orientação deve ler, no Velho Testamento, o Gênesis, o Levítico e o Deuteronômio, onde vai descobrir que existem carnes puras e impuras. E que é permitido comer a carne dos animais mas não o sangue – razão pela qual os judeus ortodoxos lavam a carne em água morna e salgam para que não reste do sangue nem uma gota. Outra prática judaica ortodoxa: não misturar carne com leite ou seus derivados na mesma refeição, e separar utensílios para um e outro.

Os budistas tibetanos veneram a preciosidade da vida e resistem ao máximo à ideia de matar. Mas muitas vezes precisam se fortalecer comendo carne, geralmente de iaque, um boi de longos pelos negros e chifres em espiral, que no inverno gelado do Tibet pode ser o único alimento realmente revigorante. Optam por tirar menos vidas – um boi pode alimentar muitas pessoas, enquanto seriam necessárias muitas galinhas, por exemplo, para encher os mesmos pratos. Imagine sardinhas. Ou camarões.

Nos dias de encontros espiritualistas pede-se não comer carne vermelha. Muitos praticantes deixam inteiramente de comê-la, passando a usar somente carnes brancas. Isso acontece também com quem começa a fazer ioga. É porque aumenta a percepção de que umas carnes geram mais tensão do que outras. O iogue costuma se tornar vegetariano, como seus mestres hindus, e com isso se candidata a um funcionamento mental e emocional mais estável.

Na Índia se pratica o vegetarianismo há milênios. A aldeia pode estar cheia de fome, e o lago cheio de peixes, mas como o lago é sagrado, as pessoas vão continuar com fome. Só que essa fome pode servir a um aprofundamento da consciência, da capacidade de estar em paz, com a mente vazia, compreendendo que o corpo físico não é nada em comparação com o nirvana, um estado mítico de felicidade e sabedoria a que se pode chegar através da disciplina e da meditação. Assim é que milhares de pessoas sobrevivem serenas comendo quase nada.

Em maior ou menor grau, todos comemos de acordo com um sistema de crenças, pessoal ou coletivo, herdado ou adquirido, racional ou intuitivo. A crença na possibilidade de uma existência mais gentil pode nos levar a cultivar um gosto por alimentos de sabor suave, no qual se percebem muitos pequenos detalhes que apreciamos com calma, deixando que se apresentem plenamente à boca e ao cérebro. É uma forma de contemplação da natureza, e contemplar a natureza, segundo religiões como o cristianismo, seria uma forma de contemplar Deus.

Podemos também caminhar em direção ao modo de comer sátvico, da tradição indiana, em que se procura o caminho do equilíbrio e da essência. Em poucos dias o resultado aparece em forma de clareza mental, calma e sensibilidade. É uma alimentação lactovegetariana, ou seja, pode tudo menos carnes, peixes, ovos e outros produtos animais, e vale tudo em matéria de leite e derivados. Mel também pode. Mas tudo tem que ser orgânico, fresco e de ótima qualidade. Leite pasteurizado já não pode. O leite (cru) deve ser bebido sozinho, longe de qualquer comida, porque misturado retarda a digestão. Queijo e iogurte, que são fermentados, podem ser comidos com folhas e vegetais sem amido, isto é: nada de pão com queijo, pão de queijo, pizza…

De volta ao restaurante, o monge termina seu filé e pede uma cumbuca com água bem quente para beber. E nós, pensando nesse mundo de contradições, damos nosso voto àqueles que, sem seguir qualquer cartilha, são bons e generosos, têm o coração grande e a mente aberta. Pensam nos outros, respeitam a vida, comem o que estiver na mesa. Mesmo sem um repertório de atitudes espirituais, está na cara que são bons amigos de Deus.

do livro Amiga Cozinha

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