O professor
Fernando Zucoloto ensina Ecologia Trófica na USP de Ribeirão Preto

 

 

ECOLOGIA:
ciência que estuda as relações dos seres vivos entre si ou com o meio orgânico ou inorgânico no qual vivem; estudo das relações recíprocas entre o homem e seu meio moral, social, econômico

TRÓFICA:
relativo a ou próprio de alimento
ou do processo de alimentação

zucoloto@ffclrp.usp.br

PROFESSOR NA ÁREA DA EVOLUÇÃO DO COMPORTAMENTO ALIMENTAR ESCREVE:

MAIS UMA VEZ,
OS TRANSGÊNICOS

Fernando Zucoloto,
USP, Ribeirão Preto

Com a liberação para a comercialização da soja transgênica - plantada por agricultores gaúchos - pelo governo Lula, mais uma vez acendeu-se a discussão sobre o polêmico assunto. Alimentos transgênicos são prejudiciais à saúde humana ou não? Tais alimentos resolverão o problema da fome no mundo? Os alimentos transgênicos seriam preferíveis aos alimentos tradicionais, pois esses últimos são cultivados com substâncias químicas, prejudiciais à saúde? E outras questões que poderiam ser colocadas aqui.

Antes de entrar na discussão das questões acima, gostaria de registrar aqui uma dúvida que estou tendo, desde que o governo Lula liberou a comercialização da soja transgênica: houve, está havendo ou haverá algum processo contra esses agricultores? Se a resposta for negativa eu perguntaria: para que existem leis nesse país? Ou, por que pessoas são julgadas e punidas quando não obedecem às leis vigentes e esses agricultores não? E, por favor, não me venham com alguma resposta de cunho econômico para justificar atos ilegais. Eu estou somente querendo entender quem nesse país pode ou não pode infringir as leis. Afinal, as pessoas que plantam maconha também podem argumentar que investem tempo e dinheiro nesse cultivo, e que a comercialização da maconha rende bastante dinheiro.

A análise da polêmica sobre os transgênicos precisa ser vista por 2 prismas: a utilização de transgênicos em nível individual e a utilização em nível populacional. Em nível individual, a polêmica se reduz bastante, ou mesmo termina, já que é uma discussão entre o paciente e o médico. Ou seja, a aplicação de uma terapia transgênica, ou mesmo para a prevenção de doenças, não afetará outros indivíduos, além daqueles que se submeterem à terapia. Na utilização dos organismos transgênicos em nível populacional a polêmica se acirra, pois essa utilização poderá afetar de forma negativa e irreversível o meio ambiente. Vamos nos ater a esse último aspecto.

Embora até agora as discussões sobre os alimentos transgênicos estejam carregadas de paixão e uma boa dose de maniqueísmo, alguns pontos precisam ser esclarecidos. Vou me ater ao desconhecimento dos aspectos ecológicos e evolutivos que cercam as discussões.

Um dos pontos cruciais, geralmente afirmado pelos defensores dos alimentos transgênicos, é que eles são utilizados há mais de 10 anos nos Estados Unidos e não apresentaram nenhum problema ao meio ambiente ou à saúde das pessoas. Nesse ponto aparece o desconhecimento desses defensores dos transgênicos em relação à variável TEMPO, quando se trata de discutir os aspectos ecológicos e evolutivos. É extremamente difícil, ou mesmo impossível, se avaliar qual o tempo necessário para que apareçam os problemas oriundos de uma nova tecnologia aplicada em nível populacional. Aí poderia vir a pergunta: mas, se é assim, não é possível determinar em que ponto das pesquisas poderemos dizer que os transgênicos são seguros? E não é mesmo. Vamos dar um exemplo.

No programa "Roda-Viva" , apresentado na TVCultura, dia 07/04/2003, o debate foi sobre os transgênicos. Um dos debatedores, defensor dessa tecnologia, afirmou que desde que a espécie humana "inventou" a Agricultura, há onze mil anos, vem "misturando" genes para a melhoria das espécies animais e vegetais. E é isso, continuou o participante, a que se propõe a tecnologia dos transgênicos.

Duas questões sobre a afirmação do defensor da referida tecnologia: em primeiro lugar, existe uma diferença muito grande, do ponto de vista biológico, entre cruzar variedades diferentes e introduzir genes de uma espécie em outra espécie, muitas vezes distantes, filogeneticamente falando; em segundo lugar, fato que pouca gente menciona, foi com o início da Agricultura que muitos dos problemas de saúde da espécie humana começaram a aparecer e persistem até hoje.

Depois da "invenção" da Agricultura, a espécie humana começou a selecionar plantas e animais que seriam mais convenientes para a sua manutenção. Chegamos a um ponto, com o desenvolvimento do capitalismo e agora do neoliberalismo, em que a seleção de plantas e animais é mais direcionada para exportação, e conseqüente tentativa de equilíbrio da balança comercial, do que para saciar a fome da população. O exemplo do Brasil é emblemático, pois a nossa produção de alimentos daria para alimentar, com folga, toda a nossa população. Entretanto, a péssima distribuição de renda e o direcionamento de nossa produção agrícola e pecuária, voltada para o comércio exterior, impedem a utilização de nossa produção de alimentos por grande parte da população. O aumento da produção de soja está acontecendo às custas da redução dos nossos cerrados, que somente perdem em biodiversidade para a Mata Atlântica. No mesmo sentido, o crescimento de nossas exportações em suínos e aves para vários países (e cantada em prosa e verso pelos inocentes de plantão) faz com que esses países importadores se livrem dos custos ambientais das criações desses animais. Os custos ambientais são nossos, e como são eles que regulam os preços no mercado mundial...

Com o "aparecimento" da Agricultura, a espécie humana mudou radicalmente seus hábitos alimentares. Se antes da "invenção" da Agricultura, a nossa espécie se alimentava daquilo que a sua história evolutiva a havia preparado para, hoje a nossa alimentação mudou muito. Para pior. Os nossos antepassados ingeriam alimentos vegetais ricos em fibras, vitaminas, minerais, além de carboidratos complexos e lipídios essenciais para a saúde, ricos em omega 3, por exemplo. A carne que eles ingeriam era pobre em lipídios prejudiciais para a nossa saúde e colesterol, mas rica em proteínas e ferro, por exemplo. Além disso, a população humana ingeria uma quantidade enorme de diferentes itens alimentares, o que fornecia grande variedade de nutrientes. Hoje os itens alimentares ingeridos pela população humana, em certos locais, não passam de 30. Essas mudanças são frutos da seleção feita nas plantas e animais utilizados por nossa espécie visando somente a produção quantitativa.

A manipulação humana e os interesses comerciais nos fazem hoje reféns de uma alimentação pobre em fibras, vitaminas, minerais, lipídios essenciais, mas ricos em colesterol, lipídios prejudiciais e toxinas. Os nossos alimentos são, hoje, repletos de substâncias químicas, hormônios, etc, pois sem eles, a produção cai e o desenvolvimento das plantas e animais utilizados na alimentação humana se faz em tempo bem maior do que o exigido pelo mercado. Enfim, no sistema político que vivemos, o interesse comercial na produção de alimentos está muito acima da saúde e bem-estar da população.

Os problemas com a saúde humana somente começaram a ser correlacionados com as mudanças de nosso comportamento alimentar há pouco mais de uma década. Entretanto, esse problemas começaram há onze mil anos, com o advento da Agricultura.

Um dos problemas de saúde que mais cresceram com a mudança de nosso comportamento alimentar foi o diabetes tipo II, causado principalmente pelo excesso de peso, que por sua vez é conseqüência de uma série de fatores como ingestão exagerada de Calorias, falta de exercícios físicos, etc. Entretanto, sabe-se, hoje, que a ingestão exagerada de carboidratos com níveis altos do índice e carga glicêmicas é uma das responsáveis por esse crescimento do diabetes tipo II. O índice e o carga glicêmicas, grosso modo, são utilizados para medir a velocidade com que o carboidrato ingerido é digerido e glicose é liberada na corrente sangüínea. Esses valores dependem de vários fatores e, entre esses fatores, a quantidade de fibras. Quanto mais fibra o alimento contiver, menores os seus índice e carga glicêmicas. Estudos paleontológicos mostram o aparecimento do diabetes tipo II em múmias egpícias após a mudança dos hábitos alimentares naquela região, ocorrida há milhares de anos. Esse povo passou de uma alimentação baseada em grãos integrais para uma alimentação baseada em pão feito com farinhas pobres em fibras.

Embora pudéssemos citar vários outros exemplos, o citado acima serve para que entendamos que é muito complicado sabermos quando os problemas (se vierem a acontecer) advindos da ingestão de alimentos transgênicos aparecerão. As questões relacionadas com o diabetes tipo II começaram a aparecer com o advento da Agricultura e a conseqüente mudança dos nossos hábitos alimentares; entretanto, este fato somente veio a ser descoberto no início da década de 80. Obviamente, é preciso levar em consideração a história e os avanços da ciência. Entretanto, muitas vezes o não aparecimento de problemas relacionados a uma nova tecnologia não significa que eles não existam, mas somente que não foram detectados ou correlacionados com esses eventuais problemas.

O mais preocupante, entretanto, é que as discussões sobre esse tema sempre são voltadas para as vantagens e desvantagens dos transgênicos sobre a agricultura tradicional. Entretanto, o caminho para uma alimentação saudável e sem risco ambiental não está na Agricultura e Pecuária tradicionais e, provavelmente, nem na tecnologia transgênica. Além das questões ambientais e riscos para a saúde humana, essa última favorece enormemente grandes empresas multinacionais, prejudicando o pequeno produtor.

As soluções definitivas para as questões relacionadas com a produção de alimentos e a saúde humana, são a agricultura orgânica e familiar. Alguns incrédulos dizem que a agricultura orgânica e familiar é incapaz de produzir para sustentar tanta gente. Acreditamos que seja possível, bastando mudanças de mentalidade e na forma de produção e distribuição de renda.


 

Fernando Zucoloto é formado em Ciências Biológicas pela USP, campus de Ribeirão Preto, em 1968. Especializou-se em Nutrição e Alimentação Animal pela Faculdade de Medicina da USP, com o apoio e participação de órgãos internacionais como a FAO e a Organização Mundial de Saúde (1971). Tem-se dedicado à área de Ecologia Trófica, com mais de 80 trabalhos publicados no Brasil e Exterior, além de vários artigos de divulgação científica. Assessor de várias revistas científicas no Brasil e exterior e do Ministério de Agricultura de Israel para projetos científicos. É atualmente professor titular de Ecologia Trófica na USP, campus de Ribeirão Preto.

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Sonia, você me perguntou como surgiu minha "paixão" pelo assunto alimentação. Fazendo uma rememorização cheguei ao seguinte: quando eu tinha 14-15 anos, depois de passar mal várias vezes quando ingeria carnes gordurosas (meu pai tinha um açougue), frutas cítricas, bolos, doces, etc, o médico diagnosticou "vesícula preguiçosa". Embora não fosse nada importante, este fato me limitou e limita abusar de certos alimentos. Para a minha sorte, pois são todos alimentos longe de serem saudáveis, com exceção para as frutas cítricas. Como eu era um adolescente muito perguntador, comecei a querer saber o porquê de tudo que estava me acontecendo. Comecei a "encher" o meu médico de perguntas. Ele, pacientemente, me explicava e me passava leituras, poucas naquela época. Decidi, então, que seria um estudioso da Alimentação e Nutrição. Só que eu não queria ser médico e, naquela época, não existia o curso de Nutrição. O mais próximo era Biologia. Cursei Biologia na USP, sempre me interessando pelo assunto em pauta e nunca mais parei. Paralelamente a isso, como jovem da geração 60, me enfiei em política, e comecei a relacionar a fome com os aspectos sociais, enquanto a Biologia me ensinava os aspectos evolutivos do assunto. Em 1972, foi aberta a primeira loja de produtos naturais com uma visão de um médico , na época estudante do último ano. Ele, inclusive, trabalha hoje com isso e tem ou teve uma chácara no estado do Rio, Dr. Vinholis, conhece? Comecei a freqüentar sua loja e fui aprendendo muito sobre o assunto. Embora minhas pesquisas sejam sobre nutrição de insetos e suas aplicações, sou professor na área de Evolução do comportamento alimentar.

Um abraço,

Fernando

www.correcotia.com