ninfa e fauno
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Meditando na cozinha

Todo ano, verão; toda pessoa, coração

Aí é verão e o sol brilha lá fora, enquanto por dentro brilha o coração. Sol irradiando luz e calor para animais e plantas, coração irradiando sentimentos amorosos e produzindo alegria.

Na vida real as coisas são simples assim: passa um desconhecido, sorri, a gente sorri de volta. A simpatia flui, e por que não? É nesse encontro do olhar que se percebe o primeiro sinal de calor humano. Daí para o resto, é só deixar.

O coração vem à boca, a gente fala de coração, escuta com o coração, sente bater mais forte, sente parar um instante, fica de coração leve ou de coração na mão, às vezes ele parece apertado. Saber de cor é guardar no coração. Sua expressão é cordial, sinônimo de afável, amável, sincera.

Na filosofia chinesa o coração representa a energia de Fogo, soberana, que não tem forma definida mas é inexcedível em luminosidade. Governa a clareza do que se diz e do que se escuta, e se o discurso é incoerente ou os sons parecem misturados é porque essa energia está em desequilíbrio. Frieza com as pessoas, aridez emocional, comunicação difícil, má circulação, extremidades frias, sensações despropositadas de frio e calor, varizes, hemorróidas, dificuldade de se posicionar diante do mundo e das pessoas, emoções e pensamentos confusos, incapacidade de concluir o que foi iniciado, desejos fortíssimos que atropelam os outros, descaso pelos sentimentos próprios ou alheios: problemas no amplo território do coração.

Seu sabor primordial é o amargo. Café, chimarrão, chá, misturas digestivas, infusão de casca de limão, extrato de amêndoas e de jurubeba, jiló, couve, chicória, rúcula, serralha, catalona, raditi, escarola – a sabedoria se mostra no cardápio. E o chocolate vem junto, sabor amargo disfarçado com açúcar e leite.

Dizem até que um chocolate substitui com vantagens o encontro amoroso, mas não acredite. Coração que se preza gosta mesmo é de outro batendo junto.

Excesso de prazeres e alegrias, luto e mágoas exagerados, hiperexcitação, amargura, gargalhadas freqüentes e lamentações esgotam a energia do coração. O ideal é a serenidade amorosa, que se consegue com uma atitude de contentamento diante da vida.

Diz o livro do Imperador Amarelo que no verão, apogeu de Fogo, "as pessoas não devem se cansar durante o dia nem consentir que seu espírito se irrite. Devem permitir que se desenvolvam as melhores partes de seu corpo e de seu espírito; devem permitir que seu hálito se comunique com o mundo exterior e proceder como se amassem tudo o que existe exteriormente."

Outro sábio, o Don Juan de Carlos Castañeda, fala assim dos caminhos da vida: "Olhe cada caminho com cuidado e atenção. Tente-o quantas vezes julgar necessário. Então, faça apenas a si mesmo uma pergunta: possui esse caminho um coração? Em caso afirmativo, o caminho é bom. Caso contrário, ele não tem a menor importância."

Atravessada por uma mistura opressiva de ciência, informação, industrialização e tecnologia, a vida hoje obedece a regras e rituais que desconsideram completamente a paz interior.

Sentir o coração batendo é uma forma de estar em contato com a nossa natureza mais íntima e ao mesmo tempo com o espírito divino que o coração representa.

É uma batida de cada vez. Harmoniosamente ele se contrai e se dilata, bombeando assim o sangue que renova cada célula do imenso continente pessoal. Pousando a mão suavemente no peito é possível fechar os olhos, parar o mundo, entrar em harmonia com a pulsação do universo e acalmar o pensamento.

Em chinês, coração e mente são a mesma palavra; pensamentos são movimentos do coração. Por isso, aqui agora, nada supera a importância da calma. Diz o I Ching: "Todo pensamento que transcende o momento faz sofrer o coração."

 

Sonia Hirsch

 

Sonia Hirsch escreve como quem cozinha, cozinha como quem escreve: temperando, mexendo, misturando, num ritmo e estilo muito pessoais que resultam numa das sopas de letrinhas mais saborosas da literatura brasileira de não-ficção.

Mas não é só escrever e cozinhar que essa paulista-carioca sabe. Desde os anos 80, Sonia mantém uma produção regular de livros sobre alimentação e saúde, que ela mesma escreve e publica. Sua editora, a CorreCotia, ostenta um catálogo de 13 títulos, com mais de 250 mil exemplares vendidos, entre eles os best-sellers "Deixa sair" e "Sem açúcar, com afeto", ambos já na 13ª edição.

O segredo do sucesso, claro, está na receita. E a receita de Sonia Hirsch é justo não ter receita. Ela faz cada livro artesanalmente, como quem cria um novo prato: experimentando o texto, testando as cores, provando os papéis, acertando o ponto. Suas obras estimulam a gente a se cuidar melhor, e ainda ter prazer no processo.

Meditando na cozinha traz dois anos de sua produção mais recente, mas com direito a um molhinho extra: 21 páginas de receitas e comentários. Escritas especialmente para complementar as crônicas originais, elas trazem dicas que vão desde como preparar um jantar saudável a dois até como usar nabo ralado para tirar manchas.

E a meditação, como é que entra nessa alquimia? Ah, isso a própria autora pode explicar melhor. Quer provar? Abra o livro, e comece a se deliciar com a Sonia você também.

Gabriela Dias, editora

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