ninfa e fauno
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FRANGOS, OVOS
E SAÚDE

Entrevista com
Dilma Pimentel,
ex-proprietária de granja no RJ

 

1. O crescimento dos frangos produzidos em escala comercial é muito rápido. A que se deve essa rapidez? Essa velocidade não seria prejudicial à saúde do animal e à nossa?

O crescimento dos frangos se deve primordialmente ao trabalho de seleção genética. Nas últimas décadas foram feitos cruzamentos entre raças de forma a não só crescerem rápido, como também a terem uma melhor definição de carcaça, concentrando mais “carne” no peito ou nas coxas.  Mas a forma de manejo influencia, já que os animais são estimulados a comerem ininterruptamente,  com a utilização de comedouros automáticos e sistemas de iluminação especiais.

É lógico que a ração apropriada complementa o trabalho, contudo não é a única justificativa para o rápido desenvolvimento. Eu mesma, na década de 90, comprei um lote de frangos de corte para um cliente que não foi buscar.  Tal fato me deixou com um problemão, já que eu tinha uma granja “matrizeira”, isto é, eu produzia filhotes e não tinha nem instalação adequada nem a ração apropriada.  Posso garantir que mesmo assim o desenvolvimento dos filhotes foi assustador, ficando os machos prontos para abate (2 kg) com 48 dias, cerca de 8  dias apenas a mais que a média nacional dos grandes criadores. 

Para que se possa fazer uma comparação, um frango normal, de uma raça de postura (que eu costumava criar) e sem este trabalho genético, levaria no mínimo 150 dias.

2. Os medicamentos necessários à sobrevivência dos frangos produzidos nessa escala são parte importante nos custos de produção?

Os medicamentos são fundamentais e devem ser dados de forma preventiva, pois animal doente não cresce, não engorda, e ainda, por sua baixa imunidade, acaba atraindo outros tipos de doenças oportunistas. Além disso, a forma intensiva como são criados acaba causando, caso haja um problema,  a contaminação do lote muito rápido.

Os custos são altos não só pelo preço em si, mas também pela mão de obra que dá.  Ultimamente há um esforço em se melhorar as vacinas. Primeiro, juntar doenças diferentes como já se faz com gente (vacina tríplice) ou com cães (quíntupla e sêxtupla). Depois, permitir que as vacinas sejam dadas no momento do nascimento, pois, já que tem que pegar no filhote na hora que sai do nascedouro, aproveita para vacinar logo. E finalmente diminuir o número de doses que precisam ser dadas.

A relação com os antibióticos é um pouco mais complexa, já que são adicionados à ração com regularidade e de forma preventiva.  Ninguém espera ver um animal doente para começar a tratar, pois, como disse anteriormente, a disseminação seria muito rápida, inviabilizando totalmente o lote inteiro.

3. O confinamento dos animais, então, gera problemas de saúde para eles?

O confinamento sem dúvida nenhuma não é uma boa coisa.  É só pensarmos em nós mesmos, que somos aconselhados a evitar lugares como cinemas em caso de epidemias.

É importante ressaltar que esses animais acabam ficando tão pesados que, também como nós, vão ficando sedentários. Esses animais praticamente não andam.

4. Existem diferenças na alimentação que os machos e as fêmeas recebem? Quais seriam as principais diferenças?

Que eu saiba, não.  O que sei é que os machos são criados separados das fêmeas porque chegam à idade de abate mais rápido (menos 5 a 7 dias).  Isto permite que todo o lote seja abatido junto, evitando o trabalho de se ficar escolhendo os mais gordinhos e de mexer nos equipamentos para que o confinamento se mantenha, além do stress para os animais. A propósito: stress adoece e pode até matar.

Quando um galpão fica vazio, entra em desinfecção imediatamente, ficando livre para que outro lote venha. Temos que pensar nas granjas como uma linha de produção, onde todo o manejo é feito de forma a racionalizar o serviço.

5. O que seria necessário para produzir frangos e ovos orgânicos? Eles seriam comercialmente viáveis?

Um ovo, para ser realmente orgânico, precisaria ser criado sem a utilização de rações comercializadas.  Isto é possível? Sim. As rações são feitas de macro e micro nutrientes que podem ser adquiridos separadamente. Lá na granja comprávamos o fubá, o farelo de soja, a farinha de trigo e a farinha de ostra (macro) e misturávamos a um produto denominado núcleo (micro). Este núcleo era um composto de sais minerais e vitaminas que garantiam o mínimo necessário para o animal se manter saudável.  Vocês podem se perguntar se precisava. Teoricamente não, no entanto não há como saber se os macros eram de boa qualidade e além disso eu precisava acrescentar nutrientes que não havia no resto.  É como se uma pessoa vivesse comendo só arroz com feijão, não dá para matar, mas ficam faltando os legumes, as frutas, as verduras.

Quanto a serem comercialmente viáveis, eu particularmente acho que não.  Primeiro porque uma galinha genuinamente caipira (do tipo que bota o ovo arredondado, nem branco nem marrom), coloca pouquíssimos ovos no ano, cerca de 50 a 70.  Para essa galinha o gasto energético é baixo, e aí sim uma alimentação só com macronutrientes, matinhos e minhocas ciscadas no quintal seria suficiente para repor energia. No entanto, uma galinha comercialmente viável (cerca de 180 a 250 ovos ano), daquelas que colocam os ovos “vermelhos”, precisa de uma alimentação balanceada, pois senão não conseguirá colocar todos os ovos possíveis. 

Além disso vem a questão do custo dos próprios macronutrientes.  Como posso saber se o milho que estou comprando é ou não orgânico? Como saber se a soja, principal fonte de proteína, recebeu agrotóxicos em seu ciclo de produção? Só teria essa certeza se eu mesma plantasse. O que acabaria encarecendo e inviabilizando uma criação comercial, mesmo que de médio porte.

6. A cor da gema do ovo ainda é um bom critério para reconhecer um ovo caipira? Qual a diferença entre "caipira" e "orgânico"?

Não, a cor da gema sinaliza apenas a presença de corantes (tipo caroteno) na alimentação das aves.  Há inclusive complementos alimentares à base de vegetais com muitos pigmentos, como por exemplo o urucum, que podem ser adquiridos e adicionados no sentido de “amarelar” a gema.

O que geralmente faz as gemas dos ovos caipiras terem uma cor amarela, ou avermelhada,  é que animais criados em quintal costumam comer mais milho, o que acaba provocando essa coloração.  Criações comerciais, em gaiolas ou no piso, procuram utilizar uma ração com mais proteína (soja) do que gordura e energia (milho), o que acaba deixando a ração menos “amarela”.

Quanto à dúvida do que é mais natural, ovos brancos ou vermelhos, afirmo apenas que a casca nada tem a ver com o que tem dentro do ovo.  Esta é apenas uma característica da raça da galinha. 

Quanto ao que é uma galinha caipira, podemos compará-la ao que se costuma chamar de cachorro vira-lata.  São galinhas oriundas de tantos cruzamentos que não se pode definir um padrão.  Elas geralmente são pequenas, coloridas, e como colocam poucos ovos são excelentes chocadeiras. Seus ovos são pequenos, arredondados, rosados, e a gema pode ou não ser amarela, já que isto, repito, depende do que ela come.

É importante ressaltar que há galinhas caipiras e galinhas criadas como se fossem caipiras. Neste caso, a denominação mais correta seria "galinhas criadas no sistema extensivo" - soltas, com possibilidade de ciscar, pegar sol... O que vejo hoje em dia, não sei se por desinformação ou má fé, são ovos vermelhos de galinhas da raça Rhodes ou New Hampshire sendo vendidos como se fossem de galinhas caipiras.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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