No meio da grande floresta, junto a uma clareira, vive o curandeiro Didó. Nem alto nem baixo, nem gordo nem magro, nem bonito nem feio, nem simpático nem antipático: um tipo que às vezes nem se percebe que está ali, às vezes percebe-se tanto que mal se vê o que está em volta.

Didó tem o dom de curar os doentes, que só de chegar perto já se sentem melhor. Por isso todas as pessoas e todos os animais da floresta conhecem o caminho da casa dele, e ali vão dar a pé ou de barco, pois um riozinho atravessa a clareira, ou então por via aérea, de galho em galho e de cipó em cipó.

A vida de Didó é pacata. Acorda antes do sol, espreguiça como se tivesse dormido cem anos, lava o rosto com água fria. Quando o dia começa a amanhecer ele já está caminhando pela floresta. Fala com bichos e plantas, colhe ervas, recolhe orvalho, sobe nas árvores para visitar ninhos, ouve a conversa dos passarinhos, dá palpite na arrumação das samambaias e só volta para casa quando o sol já está lá em cima.

Se ele mora sozinho? Que nada! Na mesma casa vivem Mariquinha, Golias e Paiê. Mariquinha baixinha, gorducha, engraçada, casada com Golias enorme, magro e sério. Paiê, um índio centenário de cabelos na cintura e campeão mundial de rugas, foi quem criou Didó. Já era velho quando Didó nasceu. Olhou para a cara do guri, olhou para a mãe do guri, falou: Me dá? Muito espantada, ela perguntou: Pra quê? Paiê respondeu: Pra criar, que suncê já tem outros e eu não tenho nenhum. A mãe de Didó pensou, pensou, decidiu: Deixa ele comigo enquanto estiver mamando. Quando a boca se encher de dente suncê pode vir pegar. Dizem que foi daí que surgiu o nome do curandeiro, que de vez em quando a mãe reparava em mais um dente nascendo nele, aí soltava uma lágrima e se alguém perguntava o de quê do choro ela respondia: De dó...

A mãe era pobre de marré, marré; Paiê também era; mas a floresta era rica. Casa se fazia de troncos e barro, com teto de grandes folhas e chão batido. Comida se plantava um pouco, outro pouco se ganhava. Tinha os ovos que a galinha dava, raízes e verduras no mato, o rio cheinho de peixes, árvore frutífera que não acabava mais. Assim que se mudaram, toda fruta que Didó comia ele cuspia o caroço no mesmo buraco. Foi assim que surgiu uma árvore que hoje ninguém entende, pois a copa de muitos troncos entrelaçados mistura pitangas e abacates, graviolas e jabuticabas, jacas e sapotis, tamarindos, pitombas, manguinhas carlota, cajá, umbu, abiu, jenipapo, laranja, mamão, serigüela, maracujá e mil outras.

Mariquinha cuida da comida porque é o que ela mais gosta de fazer na vida. Quando chegou, montada nos ombros de Golias, tinha um almoço delicioso preparado por Didó e Paiê, que ambos cozinham muito bem. Ela cheirou, xeretou, provou, saboreou, comeu, no final estalou a língua e disse: Faço melhor. Foi para a cozinha e tornou conta, por pouco não pendurava sua rede de dormir ali mesmo nos paus do telheiro. Fora isso, Mariquinha fia e tece panos com as flores de algodão e linho que Golias traz e ainda faz sapatos com as peles de animais que ele encontra mortos na floresta. Na hora de plantar, todo mundo pega na enxada e ela também; na hora de colher, todo mundo carrega balaio e ela também. Faz trança de cebola e de alho, debulha milho, pila arroz, descasca feijão, mói farinha na pedra, não conhece dificuldade e está sempre rindo. Seu único luxo é passear de camarote, bem sentada no cangote de Golias, observando a vida do alto e aproveitando pra colher as frutas mais madurinhas que sempre ficam lá em cima pegando sol. Seu sonho: andar de avião. Golias resmunga: sonho impossível, isso sim. Imagina. Nós aqui embrenhado na mata, o avião voando lá no alto do céu, que que tem a ver uma coisa com a outra? Muda de sonho, Mariquinha! E ela: Mudo não, ora essa. sonho é sonho, só de sonhar já tá bom...

Paiê fala pouco, às vezes parece surdo. Gosta de ficar horas parado na mesma posição feito planta, feito ave quando dorme num pé só, feito pedra. Nessas horas o olhar dele parece que não está vendo, que a alma viajou pra longe. Já teve muita ocasião de se pendurar nas árvores de cabeça pra baixo, feito morcego, e ficar o dia inteiro. Também já sentou em brasa de final de fogueira e não se queimou. O povo desconfia que Paiê é bruxo e que foi ele quem ensinou a Didó as artes de curar; mas fica só desconfiando, porque provar ninguém prova nem o velho índio diz nada. De vez em quando monta na tartaruga grande e some durante dias, semanas até. E volta como se nada tivesse acontecido.

Pois então, é nessa companhia que Didó vive e cumpre sua tarefa de atender a quem precisa. Ora é a mulher inchada que Didó trata com um chá de alfinete fazendo ela esguichar água por todos os poros, ora é o moleque enfezado que dá cabeçada em todo mundo e que Didó descobre que mama na teta de uma cabra enfezada e cabeçuda, portanto o remédio é parar de mamar ou mudar de cabra; e tem o homem curvado e cheio de dor nas costas que Didó ensina a observar as estrelas, de forma que a coluna dele vai reaprendendo devagarinho a ficar reta. Em tudo Didó dá jeito. Entende os segredos das plantas, das ervas, cipós e raízes, sementes e caules; costuma dizer que não há mal sem remédio natural e que a doença faz parte da saúde, por isso a natureza já produz um e outro ao mesmo tempo, tanto o que mata quanto o que cura; e que às vezes é uma natureza tão danadinha que já faz os dois num só, como certas ervas que em doses pequeninas são remédio milagroso, em doses grandes são veneno fatal.

Dinheiro, Didó não ganha nem nunca viu.

Está rico é de tanto pato, peru, galinha, leitão, jegue, rede, balaio, coberta, toalha de renda, roupa, cadeira, mesa, banco, talha e pote que trazem pra ele em gratidão, e que ele também vai logo dando para os pobres seguintes que aparecem. A riqueza de Didó é o coração cheio.

Não muito longe dali, o avião que Mariquinha viu passar pousa num campo improvisado e cospe caixas, máquinas e gente com cara de Ipanema e Nova York, todo mundo falando Que loucura!, Que barato! e Que incrível! enquanto olha em volta sem parar. É a equipe da TV Maravilha que veio fazer uma reportagem na selva. A repórter é nada menos que Maria Manuela, ídola de todo o Brasil por sua carinha simpática, riso brejeiro, inteligência ao fazer perguntas e coragem de se aventurar por aí em busca de novidades. Com ela estão o câmera Renato, três assistentes de produção e oito carregadores de bagagem. O avião vai embora e eles começam a penetrar na floresta.

Maria Manuela vai na frente, Renato logo atrás filmando tudo o que ela vê, principalmente os passarinhos: Ali, Renato! Ih, olha lá! Nossa, que lindo! Rápido, Renato, atrás daquele galho! E ele: Calma aí, Manuela, que eu fico zonzo com tanto movimento! E ela: Renaaaato, olha lá, ali, aqui, ih, sumiu...

Duas horas depois, quando o pessoal já está se sentindo meio em casa, um ziiing! nos ouvidos põe todo mundo de olhos arregalados e cabelo em pé: uma flecha certeira atinge um fardo da TV Maravilha. E sem intervalo, outras doze cercam a posição da equipe. Os carregadores e assistentes instantaneamente largam tudo e somem, enquanto Manuela segura o trêmulo Renato com toda a força, adorando: Os índios! Renato, que sorte! Vamos filmar os índios! Renato a essa altura não sabe nem o que é filmar, nervoso, suando frio, e vai sendo empurrado que nem burro empacado na direção de onde vieram as flechas.

Subitamente começa o tumtum de tambores guerreiros, que cresce com o canto selvagem dos índios. Não há dúvidas de que estão no caminho certo. Agora, até Manuela está com medo. Tira do bolso seu minigravador, aciona o botão e grava: Queridos telespectadores, estamos vivendo os momentos mais emocionantes das nossas vidas. Fomos cercados por índios de uma tribo ainda não identificada. Talvez sejam os caçadores de cabeças. Calma, Renato. Talvez sejam canibais. Calma, Renato. Estamos um pouquinho nervosos. Eles se aproximam. Queridos telespectadores, eu amo vocês. Até breve ou adeus para sempre. Clic.

Passo a passo, a valorosa dupla se encaminha para a clareira onde o troar dos tambores já é ensurdecedor e os gritos de guerra dão calafrios na espinha. Um espetáculo visual deslumbrante aparece então, fazendo até Renato se esquecer do medo e ajustar a lente: pintados, enfeitados, organizados em círculos maiores e menores, cerca de cem índios dançam em volta de um altar de guerra, numa coreografia nunca antes vista na tevê. Ninguém parece notar a presença de Renato e Manuela, que a essa altura já estão subindo na mangueira em busca do melhor ângulo. Entusiasmada, Manuela comenta todos os detalhes para os telespectadores, fazendo comparações com o desfile das escolas de samba mas sempre lembrando que ali se trata de uma dança de morte, cujo final pode ser desastroso... para ela mesma!

A dança vai ficando mais e mais selvagem. E no momento em que os índios parecem mais furiosos, finalizando seu canto de guerra e partindo para o ataque bem na direção da mangueira onde estão os apavorados Manuela e Renato...


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88 páginas em papel couché
todo ilustrado em cores
por Elihu Duayer e Cesar Lobo

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